todamaneira


Ônibus

“Sinto muito, doutor, mas esse horário não vai dar”, disse, num misto de vergonha e culpa. “Não vai dar por quê?”, perguntou o homem de terno e gravata, intrigado. “Não vai dar. Pra chegar sete, eu preciso pegar o ônibus das seis, e eu pego o ônibus das sete e meia”, respondeu atropeladamente, já sabendo o que ia acontecer. “Mas a senhora não pode sair mais cedo?”. “Até posso, só que eu tenho que pegar o ônibus das sete e meia”. O homem refletiu. “Olha, dona Adélia, eu até queria ajudar a senhora, mas você também tem que colaborar. Chegar depois das oito não dá!”. Ela não insistiu, resignada que estava ante o que já previa. “É. Então acho que fica pra outra vez. Agradeço mesmo assim”. E levantou. E foi embora. O homem de terno e gravata (que, minutos depois, esquecera o assunto e berrava ao telefone com um cliente devedor) quedou perplexo com a atitude da velha mulher, a quem prometera ajuda num domingo de igreja.

 

Adélia deixou o edifício com lágrimas nos olhos. Não podia evitar. Tantos empregos perdidos! Mas estava fora de cogitação deixar de pegar o ônibus das sete e meia. E o das seis, no final da tarde, para voltar para casa. E esse emprego, agora, que parecia tão perfeito! Era no caminho do ônibus, um só, nem precisava pegar outro, não tinha erro, não tinha como atrasar. No entanto, ele tinha de querer que ela chegasse tão cedo! Que tipo de ser humano sai de casa antes das sete da manhã? Era injusto, muito injusto. “Mas ele é um homem bom”, pensava, em desespero católico.

 

Era quase hora aliás. Cinco e quarenta da tarde. Andou para o ponto. Deu hora, o ônibus chegou, com descargas de fumaça e lotado. Parou um pouco antes do ponto, no fim da fila de coletivos que se apertavam para pegar os passageiros. Adélia subiu com dificuldade, sentindo os ossos fracos e a pele flácida espremidos pelo empurra-empurra de apressados, ansiosos, tristes, cansados, pensativos, destemidos, libidinosos e solitários. Gente da lotação.

 

Perto da catraca, avistou-o. Seu menino, o cobrador. Tão sério, com a expressão anestesiada por um dia inteiro de trabalho. Adélia segurou firme a barra mais próxima, e não arredou pé antes que vagasse algum lugar ali, bem pertinho dele. Josimar. “Que rapagão!”, deslumbrava-se toda. Nessa hora, esquecia os problemas. Deixava de lado a vontade de nunca ter ido atrás de seu filho, de descobrir quem ele era. Sabia que se pudesse voltar atrás, não teria começado a sair mais cedo da casa de dona Eduarda sem permissão, e não teria sido despedida. Lá, ela entrava as nove e saía as sete. Limpava, cozinhava, olhava os meninos. Dona Eduarda via as crianças antes de sair para trabalhar, na hora do almoço, e quanto voltava para jantar e dormir. “É justo então, meu Deus”, pensava ela, “que eu só pudesse ver meu menino uma vez por dia, no ônibus das sete e meia?” Não era. E ela não ia desistir enquanto encontrasse o emprego que lhe servia – um que ficasse próximo a uma das paradas do ônibus, e que não a impedisse de embarcar em seus dois horários sagrados, sete e meia e seis da tarde. “Saindo às dezoito? Isso lá são horas!”, diria dona Eduarda.

 

Doía em seu coração como nada mais na vida, aquilo, de ter deixado seu filho para trás. Agora, não podia perder de estar junto dele, admirá-lo. Todo dia, quando puxava o dinheiro de sua moedeira para pagar a passagem, fazia questão de perguntar “tá certinho?”, para ter o prazer de ouvi-lo responder “tá sim senhora”. “Tão simpático, meu rapaz!”, derretia-se. Hoje, apesar da felicidade em vê-lo, sentia que sua vida estava parada, que aquele vai e vem não ia acabar nunca. Ela às vezes nem tinha para onde ir, mas insistia em pegar o ônibus. Como sempre, reuniu suas moedas, mas antes que pudesse fazer algum comentário, Josimar falou: “a senhora não tem carteira de aposentada?”. Ela tremeu, gélida, flagrante. “Ahn, não, por quê, meu filho?”. (Chamara-o de filho, meu Deus!). “É que eu vejo a senhora passando na catraca todo dia, mas nem precisa, porque na sua idade – não que a senhora pareça muito velha, pelo contrário – mas na sua idade não precisa mais ficar pagando passagem”. “Ah, eu gosto”. O rapaz a olhou incrédulo. (Que coisa besta pra se falar, Jesus!).

 

“Bem, a senhora que sabe”. E devolveu-lhe o troco. Não falou mais nada. Adélia passou, e no seu passar, no rodar da catraca, havia algo de esperança renovada, de vida girando, de novo sonho chegando. Encontrara de novo a alegria. Continuou sorrindo, e nem viu o homem que se levantava para lhe dar lugar, e deixou-se chorar um lágrima por seu filho, seu filhinho, que havia se dirigido a ela, e outra por todas as casas que ainda havia de visitar. Não sabia ainda onde ia trabalhar, mas já sabia quem iria levá-la, todos os dias. Era ali, no ônibus, que seu coração passeava feliz.

Escrito por Nim às 16h10
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