todamaneira


Onça

A onça devorava a carne destroçada de uma pequena paca, em absoluto deleite. Suas patas traseiras, firmes, apoiavam-se com elegância num toco de árvore, enquanto o resto do seu corpo reclinava-se em direção ao solo, para cheirar, rasgar e deglutir a carne fresca com mais intimidade.

 

Cores esfuziantes compunham o ambiente em que a onça estava. O laranja e preto de sua pele, e o verde da mata. O azul do pouco céu que se entrevia pelas copas das árvores, e o marrom da terra e dos troncos. Para a onça, no entanto, tudo era apenas um grande Nada, e ela, a onça, se confundia com aquele deleite, com a experiência de aromas e texturas que a carne fresca lhe proporcionava.

 

Mas o Nada é esperto, e decidiu abençoar a onça. De repente, ela se deu conta.

 

De quê? Não sabe. Mas num minuto havia uma carne, e havia uma onça. E havia árvores, e copas, e troncos. E cores. E havia ela, a onça. Antes, havia Nada, ou Tudo. Mas num segundo, nada parecia tão óbvio. Comer a carne? Por quê? Ir para a esquerda? Por quê? Por que não à direita? E ela, por quê? As manchas pretas? O pêlo laranja?

 

Tudo estranho, tudo incerto. Tudo... curioso.

 

A onça largou a carne. E num ímpeto de provar algo novo, pensou que poderia experimentar uma daquelas frutas, pequenas, verdes, que pendiam das árvores. Era algo diferente. Deu seu pulo felino, certeiro, e em dois tempos estava num dos mais altos galhos de uma goiabeira. Abocanhou uma goiaba madurinha, e mastigou.

 

Que experiência desagradável! Sentiu-se mal e jurou jamais repetir aquilo de novo. Voltou à carne, então. Hum... estava saborosa, quentinha... fresca! Esse deleite, sim, deveria ser repetido uma, duas, três, infinitas vezes!

 

Dormiu, e quando acordou o estranhamento continuava. A vida já não era natural, como antes. Ela não sabia ao certo o que fazer. Havia possibilidades, e escolhas.

 

Mas, ao menos, ela agora já sabia o que fazer: comer carne e evitar as goiabas.

 

Criou uma grande raiva das goiabas, a onça. Por onde passava, destruía-las. Mas quanto mais goiabas destroçava com sua poderosa pata, mais a onça percebia a existência de dezenas, centenas, milhares de goiabas.

 

Passou então a temer a fruta. Ela deveria ser perigosa – talvez se tratasse de um ser maligno, que planejava sua morte. Começou a freqüentar lugares onde houvesse nenhuma ou poucas goiabas. Assim, foi dando adeus ao rio onde se banhava e bebia água corrente; às clareiras onde o sol entrava livre e o chão era quentinho; aos lugares onde outras onças passeavam e namoravam sossegadas. 

 

Por outro lado, a onça comia cada vez mais carne. E quanto mais medo sentia, quanto mais triste e sozinha ficava, mais carne comia. Dessa forma, começou a engordar tanto, que em poucos meses não se sentia capaz de andar sem dificuldade. Os pequenos animais da floresta, coitados, diminuíam em número e alegria, certos de que inevitavelmente seriam vítimas da onça, e nos poucos cantos por onde o animal se permitia andar, o clima era de medo e desesperança.

 

A onça sofria, e seu sofrimento era o mundo. A água não tinha mais o mesmo gosto, nem o sol lhe trazia contento. Seus caminhos eram duros e frios. Não foi preciso muito tempo para que só restasse à onça um único prazer: mordiscar as carniças que ocasionalmente encontrava – porque caçar passou a ser tarefa impossível. Nem lembrava mais o que era caça, aliás.

Escrito por Nim às 13h23
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Ainda assim, não podia esquecer que, em algum momento, na aurora de sua vida, ela sentira a beleza. Houvera paz, quando ela estava entregue à pura felicidade. Por que não cuidou do que tinha naquela época? Por que não olhou com cuidado o verde das árvores e o marrom da terra? Mas não sabia, àquela época, que as árvores eram verdes e a terra marrom; nem que era onça, e que possuía manchas pretas. Sabia apenas ser prazer.

 

Mas então para onde fora tanto prazer? Seria ela que teria sentido tudo isso? Sabia que algo era possível, mas onde estava?

 

Um dia, enquanto meditava sobre essas questões, a onça orou. Não entendia que assim o fazia, mas rezou a um prazer que ela nem sabia mais se existia – mas que apenas pressentia.

 

E dessa oração, então, surgiu na onça uma enorme vontade de morrer. Talvez assim tudo acabasse. Talvez sem o peso daquele corpo, sem o escuro daquela floresta, ela ficasse novamente em paz. E se deixou tombar. E foi assim, conta a história, que pela primeira vez a onça (ou uma onça) sonhou.

 

Sonhou que corria livre pela floresta, e que uma enorme goiaba a perseguia. Ela queria fugir da fruta, mas ao mesmo tempo sentia a urgência de permanecer na floresta. Ela era seu lar. Deu voltas e mais voltas, tentando se esconder da goiaba para permanecer em sua casa, mas era impossível descansar – a fruta sempre a encontrava. Num certo momento, cansada e sem esperanças, desistiu. Entregou-se à goiaba e a seus terrores.

 

Na entrega, a onça acordou. E desperta, já não era a mesma. Alguma coisa acontecera. O quê?

 

Encorajou-se a descobrir. Saiu de seu canto escuro e seco, e entrou na floresta. Goiabas de todos os tamanhos a espreitavam, silenciosas, maquiavélicas, balançando levemente do topo de suas árvores. A onça sentiu medo, mas continuou. Passo a passo, tomava cuidado para não despertar nenhuma daquelas terríveis frutas, para não sugerir nem um pensamento naquele inominável mal.

 

Um galho partiu-se, no entanto, sob o peso das patas da onça. E o estalo rompeu nos ouvidos da onça como o primeiro de centenas de sons aterrorizantes da floresta, e a onça entendeu que as goiabas haviam sido despertas. Correu, portanto, e feito uma louca. Não teria parado, mas pisou em falso num pequeno buraco e caiu, rolando, rolando, rolando, até a sombra de uma enorme goiabeira, onde dezenas de goiabas verdes e maduras a olhavam de cima e outras tantas, esmagadas, se misturavam com a pele da onça, no chão.

 

A onça sentiu nojo. E dor. A onça urrava. Sabia que vislumbrava a morte. Havia chegado ao fundo do poço. Era inútil resistir. E desmaiou inconsciente.

 

No outro dia, a consciência da onça despertou.

 

Seu corpo ainda melado pelas goiabas que, involuntariamente, esmagara. Um raio de sol delicioso passava por entre as folhas da goiabeira e, delicadamente, banhava seu pêlo.

 

A onça se levantou e, num primeiro momento, estranhou aquelas goiabas ali, tão pacíficas. Não pareciam ameaçadoras. Eram apenas, sem sabor. Não lhe despertavam o apetite.

 

E assim, num clarão, num sobressalto espiritual ou científico (tanto faz), a onça entendeu sua natureza, e, como no fim de um longo inverno, sentiu paz. Olhou para os raios de sol que se infiltravam na copa das árvores, e agradeceu. Correu pela floresta e, a cada animal ou planta, agradeceu.

 

Emocionada, a onça chorou, como jamais uma onça poderia ter chorado. Pela primeira vez em anos, caçou, e em sua caça havia reverência. Em cada mordida da carne fresca, ela era prazer novamente. E sabia disso.

 

A onça, antes tão entregue, depois tão desesperada, agora era pura devoção. Contemplava a eternidade.   



Escrito por Nim às 13h22
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