todamaneira


Fernando Pessoa nos ensina como é estar no Agora

O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas

Olhando para a direita e para a esquerda,

E de vez em quando olhando para trás...

E o que vejo a cada momento

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem...

Sei ter o pasmo comigo

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras...

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do mundo

Creio no mundo como num malmequer,

Porque o vejo. Mas não penso nele

Porque pensar é não compreender...

 

O mundo não se fez para pensarmos nele

(Pensar é estar doente dos olhos)

Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.

 

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,

Mas porque a amo, e amo-a por isso,

Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,

E a única inocência não pensar...

 

(Alberto Caeiro, “O guardador de rebanhos”, www.secrel.com.br/jpoesia/alberrr.html)



Escrito por Nim às 14h41
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Perfeição

Se construo,

o construído se perde

no tempo.

Só permanece o construtor.

 

Se destruo,

o destruído se vai

e fico sozinho.

Só permanece o destruidor.

 

Se tento capturar

a definitiva forma,

logo ela se revela

vazia.

Mas o contemplador fica.

 

Se tento permanecer,

as rugas surgem,

os sentimentos mudam,

os pensamentos me escapam.

E o testemunho continua.

 

Se sou um imenso vazio,

no entanto,

aí sim tudo se me parece

- ou não.

Entra e sai.

É e some.

Perfeito,

sem palavras,

sem razão.

Escrito por Nim às 16h44
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Entrega

Tento incessantemente

construir um CASTELO,

mas ele se desfaz.

 

Sem horrores, sem avisos,

apenas se desfaz.

 

Penso, repenso,

descubro uma nova visão.

Concluo serem exatos, agora,

o ponto, a estrutura.

Mas eles, pouco a pouco, se vão.

 

Acho um arremate

e, sem rodeios,

a felicidade me abate.

Mas como um novilho

no altar,

também ela é imolada.

 

Desgastado, destruo o que

sobrou

do tão usado papel.

Nele fiz colas, formas,

dobraduras.

Todas em vão.

 

Mas é aí, então,

que desisto,

e nesse vazio

insisto,

e me encontro Contigo

outra vez.

Escrito por Nim às 11h56
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